Hiberna numa gaveta da CBF o esboço de um calendário avançado para o nosso futebol. À semelhança do europeu, prevê quatro semanas de férias no meio do ano e duas de pré-temporada. O Brasileiro seria disputado em 38 semanas, só aos sábados e domingos, e os Estaduais ou Regionais, mais enxutos, acolheriam 16 rodadas distribuídas por oito semanas. Evitariam-se, assim, os atropelos entre competições, desgastantes não só aos jogadores – portanto, à qualidade do espetáculo – mas à agenda e ao bolso dos torcedores. Na próxima temporada, esses atropelos insinuam estrago maior do que o de costume. Por 18 rodadas, clubes cederão jovens talentos a seleções participantes de Eliminatórias, Copa América e Jogos Olímpicos. Se o acaso tivesse tirado do sono profundo o documento há mais de uma década esquecido na gaveta, talvez não chegássemos ao ponto de obrigar o espectador a escolher entre o Brasileirão e a Olimpíada. Não bastasse o Phelps, nosso Thiago Pereira, por exemplo, terá de medir forças com Guerrero, Jadson, Ronaldinho…

Igualmente preocupante, embora alheio aos holofotes da mídia, é o desequilíbrio crônico: 90% dos clubes jogam apenas quatro meses no ano, enquanto a minoria da elite convive com o fantasma da overdose. “Há uma miopia gerencial, que se reflete no calendário esdrúxulo. Para equilibrá-lo, é preciso profissionalizar confederações, federações e clubes”, observa o diretor da consultoria Sportlink, João Henrique Areias, em entrevista ao programa O Negócio é Esporte (ouça a íntegra). Um dos pioneiros do marketing esportivo no país, Areias integrou o time de dirigentes e políticos que discutiram, em 2002, ajustes do calendário ao iminente Estatuto do Torcedor. “Saímos da discussão com a proposta praticamente aprovada. Todos os clubes, inclusive os menores, se manteriam ativos ao longo do ano sem acúmulos ou sobreposições de jogos”, recorda o especialista. ”O modelo representaria outra importante quebra de tabu, como a entrada da TV, em 1987, e a adoção dos pontos corridos. Não sei por quê, talvez por impasse comercial, acabou engavetado. Vou sugerir à CBF retomar o debate”, revela. Com sorte, a sugestão possa ganhar a pauta do corpo de notáveis criado para estudar partituras modernizantes ao nosso futebol. Ficaria mais fácil se os processos decisórios se arejassem, como sonhado em resposta às irregularidades descobertas no alto escalão da bola. Dissipadas as manchetes e a bronca de patrocinadores, o escândalo amainou sob a brisa de paliativos e protocolares cortes na carne. Nenhum deles ameaça a secular estrutura política. Torná-la aberta e transparente é um buraco bem mais embaixo do que arrumar o calendário.

“A fórmula de um calendário equilibrado, que concilie os interesses de clubes, atletas, CBF, TV, investidores e, claro, torcedores, é relativamente simples. Começa com uma visão de longo prazo e gestores profissionais, que pensem o modelo em semanas, como fazem os ingleses, cujo campeonato é o mais rentável”, compara Areias. Ele completa: “Não basta mudar as férias para o meio do ano, para evitar a superposição com os tradicionais torneios de seleções e para aumentar a chance de o Campeonato Brasileiro se internacionalizar. É preciso também amadurecer combinações que garantam aos clubes atividade econômica por dez meses, sem sacrificar os atletas. Neste sentido, nenhum outro formato mostra-se tão compatível quanto o de pontos corridos. Daí a importância de mantê-lo, conjugado com disputas de mata-mata”. Desengavetar a tal proposta, e outras sugestões livres de antigos vícios, pode ser um bom ponto de partida ao necessário amadurecimento. Não menos importante é aprofundar o debate, estendê-lo a mais integrantes do mercado – executivos, jogadores, consumidores. Ou periga chegar o dia em que teremos de optar entre a Copa do Mundo e a Copa do Brasil…

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CAIXINHA DE SURPRESAS

O Negócio é Esporte lembra um comercial do Ford Fiesta de 1997 estrelado por Rogério Ceni, com 24 anos. Por ironia, o goleiro são-paulino, ainda em atividade, aos 42 anos, diz, no comercial, que não vai voltar para o gol! Clique aqui e veja o filme.

Fonte: Lancenet

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