A França campeã mundial em 1998 é um caso extraordinário. Nunca outra seleção ganhou a Copa tendo mais convocados jogando fora de seu próprio país. Nem o Brasil, nem a Argentina, tradicionais exportadores conseguiram isso. Em 1994, a seleção de Parreira tinha onze convocados dentro do Brasileirão. Em 2002, eram treze.

Não significa que seja preciso criar reserva de mercado e só convocar os que atuam no Brasil. Significa a necessidade de fazer o Brasileirão ser realmente forte.

“O que isso significa?”, questiona o diretor-executivo do Fluminense, Fernando Simone. Significa que um torcedor na Itália abra o jornal e defina seu cardápio igual a você –ou seu filho– no Brasil. Às 14h, Liverpool x Arsenal, às 17h45, Internazionale x Lazio, às 18h, Athletic Bilbao x Atlético de Madri. Este cardápio só será correto para quem organiza o campeonato se o filho de um inglês incluir Flamengo x Corinthians.

Está bem longe disso.

Ter um campeonato relevante no Brasil significa dar motivo para os jogadores ficarem aqui mesmo com salários um pouco menores. Significa aumentar a qualidade técnica por causa disso, ampliar a necessidade de ter técnicos bem formados para atender à demanda de seus comandados e lotar os estádios. Significa a criação de um ciclo virtuoso que faça pelo menos 50% da seleção brasileira jogar dentro do país.

Hoje o Brasileirão é transmitido para a Itália, Espanha e Alemanha – são 180 países ao todo. Mas entra na grade de programação como um apêndice. Mais ou menos como você assiste ao Campeonato Mexicano no Brasil.

“É claro que precisa haver profissionalismo de quem organiza o campeonato, não apenas o clube”, diz o especialista em gestão esportiva João Henrique Areias.

Em 1987, Areias foi um dos criadores do Clube dos 13. O sonho era transformar a associação de clubes em liga brasileira de futebol e tornar o Campeonato Brasileiro um evento global. “No ano seguinte, quando a CBF se refez do golpe e ampliou o torneio em oito clubes, já julguei retrocesso”, lembra Areias.

A Premier League foi criada com a cisão de 22 clubes com a velha liga inglesa e a federação do país seis anos depois do Clube dos 13. Em apenas mais sete anos, os 22 clubes ingleses arrecadavam R$ 2 bilhões por temporada.

Hoje a Premier League arrecada anualmente R$ 4,9 bilhões, 66% a mais do que a liga espanhola e 50% a mais do que a Bundesliga, de acordo com David Goldblatt, autor do livro “The Game of Our Lives”. Em 1987, o Brasileirão tinha média de 20 mil espectadores por jogo. Em 1989, o Inglês era visto por 18 mil.

“Quando fui presidente do Flamengo, há vinte anos, a receita do clube era de R$ 20 milhões. Hoje é de R$ 340 milhões e os mesmos problemas foram agravados”, diz Luiz Augusto Veloso.

Veloso argumenta que o futebol alimenta a irracionalidade da gestão. Entre gastar pouco e montar time medíocre e abrir o bolso para ter time campeão, o dirigente é sempre tentado a seguir a segunda opção. Isso vale para Barcelona e Real Madrid.

A Premier League é um modelo de campeonato, mas dos 25 clubes que ingressaram na bolsa de valores nos anos 90, só restaram sete. O modelo exportador do Brasil ficou evidente a partir da venda de Zico, em 1983. Por 30 anos, o país vendeu seus craques e justificou a exportação com a falta de dinheiro para competir com a Europa.

Em 2012, Neymar recebeu R$ 42 milhões para ficar no Santos, mais do que Cristiano Ronaldo, Gotze e Ibrahimovic na Europa. No ano seguinte, mudou de país. Não lhe faltava dinheiro. Faltava campeonato relevante.

Fonte: Folha de S.Paulo